Por Dra. Bárbara Merlo | Oftalmopediatra e especialista em Estrabismo pelo HC-USP
O colírio vai dilatar a pupila. A visão vai ficar embaçada por algumas horas. A criança vai ficar sensível à luz. Muitos pais ouvem isso na recepção e se perguntam: é realmente necessário? Por que não dá para medir o grau sem isso?
A resposta está na biologia do olho infantil, e entendê-la muda completamente a perspectiva sobre esse exame.
A cicloplegia é a paralisia temporária do músculo ciliar, o músculo responsável por ajustar o foco do olho. Esse músculo fica dentro do olho e se contrai para focar objetos de perto, num processo chamado acomodação.
O exame com cicloplegia usa um colírio que paralisa temporariamente esse músculo, impedindo que o olho acomode durante a medição. Com o músculo relaxado, o grau real do olho fica exposto.
Crianças têm um músculo ciliar extremamente ativo. Quando submetidas a um exame de grau sem cicloplegia, o olho compensa automaticamente, mascarando parte do erro refrativo, especialmente a hipermetropia.
Uma criança com hipermetropia de +3,00 pode aparecer com grau zero em um exame convencional, porque o músculo ciliar compensa toda a diferença durante o teste. Sem cicloplegia, o médico não está medindo o grau real. Está medindo a capacidade do olho de compensar.
Isso significa que prescrever óculos sem cicloplegia em crianças é, em muitos casos, prescrever o grau errado.
O colírio é aplicado nos dois olhos, geralmente em duas ou três doses com intervalo de alguns minutos. O efeito pleno leva de 30 a 45 minutos para se estabelecer. Durante esse tempo, a criança fica com visão de perto embaçada e pupila dilatada, o que causa sensibilidade à luz.
Com o efeito do colírio estabelecido, o médico realiza a retinoscopia e a refração objetiva, medindo o grau de forma independente da resposta da criança. O exame de fundo de olho também é feito nesse momento, aproveitando a dilatação pupilar.
O efeito do colírio dura entre 4 e 24 horas, dependendo do produto utilizado, e é completamente reversível.
O exame com cicloplegia não é opcional em crianças. É o padrão ouro para medir o grau real, detectar hipermetropia mascarada e garantir que a prescrição do óculos seja precisa. O desconforto temporário do colírio é muito menor do que as consequências de uma prescrição errada ou de uma condição não detectada.
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