Por Dra. Bárbara Merlo | Especialista em Oftalmopediatria e Estrabismo pelo HC-USP
Na consulta, o diagnóstico de estrabismo raramente fica restrito às implicações visuais. Quase sempre, em algum momento, a conversa chega até um lugar mais delicado: “Doutora, as outras crianças já começaram a fazer comentários.”
O estrabismo tem um componente visível. E o componente visível, na infância e adolescência, raramente passa despercebido. Este artigo é sobre esse lado do diagnóstico: o impacto que vai além da acuidade visual e que merece a mesma atenção que o tratamento clínico.
Estudos sobre qualidade de vida em crianças com estrabismo mostram resultados consistentes:
Isso não significa que toda criança com estrabismo vai sofrer bullying ou ter problemas de autoestima. Significa que o risco é real e merece ser levado em conta na discussão sobre tratamento.
Na pré-escola, o impacto social é menor — as crianças pequenas costumam ser mais neutras sobre diferenças físicas. A partir dos 6 ou 7 anos, a consciência social aumenta, e o estrabismo visível pode se tornar alvo de comentários e apelidos.
Algumas situações comuns que os pais descrevem:
Esses sinais nem sempre são verbalizados diretamente. Crianças raramente dizem “estou sofrendo por causa do meu olho”. Elas evitam, se recolhem, ou mudam de comportamento gradualmente.
Os pais são os principais observadores. Algumas orientações práticas:
Faça a criança ter linguagem sobre a própria condição. Uma criança que sabe dizer “Estou tratando meu olho” ou “Meu olho vai ficar melhor com o tratamento” está muito mais preparada para lidar com perguntas e comentários do que uma que nunca conversou sobre isso.
Comunique a escola. O professor pode observar dinâmicas sociais que não chegam aos pais, posicionar melhor a criança em sala e intervir se houver comentários inapropriados de colegas.
Não minimize. “Ninguém está nem aí” ou “isso não importa” podem deixar a criança sem espaço para expressar o que sente de verdade. Valide a experiência antes de tentar tranquilizá-la.
Considere suporte psicológico quando necessário. Não como último recurso, mas como ferramenta de apoio ao desenvolvimento emocional. Psicólogos com experiência em crianças podem trabalhar autoestima, comunicação e resiliência de forma muito mais eficaz do que qualquer conselho parental.
Um aspecto que poucos discutem explicitamente: tratar o estrabismo não é apenas uma decisão clínica. Para muitas famílias, é também uma decisão que envolve o bem-estar emocional e social da criança.
Isso é legítimo. A qualidade de vida importa. E quando o estrabismo tem impacto visível que já está afetando a autoestima ou a socialização, isso é parte da indicação clínica — não apenas uma preocupação estética.
O estrabismo é uma condição que existe no olho, mas que é vivida no mundo social. Tratar só o componente visual sem atenção ao impacto emocional é tratar metade do problema.
A boa notícia é que o tratamento bem conduzido muda esse quadro. E começar logo tem impacto não apenas na visão — mas na confiança, na socialização e na trajetória de desenvolvimento da criança.
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