Por Dra. Bárbara Merlo | Especialista em Oftalmopediatria e Estrabismo pelo HC-USP
A cirurgia aconteceu. Os olhos ficaram alinhados. O acompanhamento seguiu. E depois de meses, ou anos, os pais percebem: o desvio voltou. Parcialmente, completamente, ou de forma diferente. E junto com o desvio, a angústia de quem já passou por tudo aquilo uma vez e pensava que tinha ficado para trás.
Este artigo é para esse momento. Vou explicar por que o estrabismo pode retornar após a cirurgia, o que isso significa para o prognóstico e quais são as opções disponíveis.
A cirurgia de estrabismo reequilibra a tensão muscular dos olhos. É um procedimento de reposicionamento muscular com alto índice de sucesso, mas que não age sobre a causa neurológica ou refrativa subjacente. Por isso, em alguns casos, o desvio pode retornar.
Os motivos mais comuns de recorrência:
Natureza do tipo de estrabismo. Alguns tipos, especialmente as esotropias parcialmente acomodativas e as exotropias intermitentes, têm maior tendência de recorrência. O componente muscular foi corrigido, mas os fatores biológicos subjacentes continuam presentes.
Correção óptica inadequada após a cirurgia. Quando há componente refrativo associado, especialmente hipermetropia, os óculos precisam ser mantidos mesmo após a cirurgia. A suspensão do uso pode contribuir para o retorno do desvio.
Ambliopia residual não tratada. A ambliopia compromete a fusão das imagens dos dois olhos no cérebro. Sem essa fusão, falta o estímulo neurológico que mantém os olhos alinhados ao longo do tempo, e o desvio tende a voltar.
Tempo de evolução. Mesmo casos bem-sucedidos podem apresentar desvio residual ou recorrência anos depois, especialmente quando a cirurgia foi feita em uma criança ainda em desenvolvimento visual.
Recorrência de estrabismo após cirurgia não significa que a primeira cirurgia falhou. Significa que o sistema visual de uma criança em desenvolvimento respondeu de uma forma não totalmente previsível, o que é biológico, não técnico.
O que define o prognóstico agora são os mesmos fatores de sempre:
O histórico de uma cirurgia anterior bem-sucedida conta a favor, não contra.
Revisão do tratamento clínico. Antes de qualquer decisão sobre reintervenção, a primeira etapa é revisar o que está sendo feito clinicamente: os óculos estão atualizados? A ambliopia está controlada? Há fatores modificáveis que estão contribuindo para a recorrência?
Toxina botulínica. Em alguns casos de recorrência, a aplicação de toxina botulínica no músculo ocular pode reequilibrar o desvio de forma temporária ou definitiva, sem necessidade de nova cirurgia.
Segunda cirurgia. É uma opção real e válida. A cirurgia de revisão de estrabismo tem índices de sucesso semelhantes à primeira intervenção. Não é “mais arriscada” simplesmente por ser a segunda.
Observação e acompanhamento. Em casos de desvio residual pequeno, sem impacto funcional, pode-se optar por monitoramento sem intervenção imediata, com reavaliações periódicas.
“A segunda cirurgia é mais complicada?”
Pode haver aderências nos tecidos da cirurgia anterior, o que exige mais cuidado técnico. Mas com um cirurgião experiente, os resultados da revisão são comparaveis à primeira intervenção.
“Quantas cirurgias uma criança pode fazer?”
Não há um limite fixo. A decisão é sempre baseada no balanço entre benefício esperado e complexidade. Em casos mais complexos, três ou mais intervenções ao longo da infancia e adolescência não são incomuns.
“Isso significa que o tratamento nunca vai terminar?”
Não. A maioria dos casos de recorrência é resolvida com uma única intervenção adicional. O acompanhamento de longo prazo é necessário, mas não implica cirurgias repetidas indefinidamente.
O retorno do estrabismo após a cirurgia é desapontante, mas não é o fim do caminho. É uma curva no percurso que tem solução, desde que avaliada com calma, com especialista de confiança e sem pressa. O que fez a diferença na primeira vez, agir dentro da janela de desenvolvimento, com acompanhamento consistente, continua sendo o que faz a diferença agora.
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